domingo, 4 de março de 2012

OS FRUTOS DA REVOLUÇÃO


  
O Gênio da França Entre a Liberdade e a Morte (Jean-Baptiste Regnault, 1795)

Texto de João Florindo B. Segundo, C.·. M.·.


A presente postagem não se trata, por sua exigüidade de um tratado e do nec plus ultra sobre o tema. Como o estudo da História é dinâmico e pontuado por novas e inesperadas descobertas que por vezes vêm mudar completamente o conhecimento que antes detínhamos sobre determinado campo, num futuro bem próximo novas informações podem surgir a reforçar os pontos de vista aqui expostos por este signatário, com base em suas leituras maçônicas, esotéricas e profanas, bem como os pontos de vista dos autores por este citado ao longo do post.

Pois bem, vamos a ele.

Há alguns anos, antes mesmo de ingressar na Ordem, este signatário teve a oportunidade de debruçar-se longamente sobre o livro “Ocidente traído – a sociedade em crise”, do Prof. Jorge Boaventura e este trecho em especial despertou-me  o seguinte questionamento:

Os ideais revolucionários que muitos Maçons alegam que a Maçonaria disseminou com a Revolução Francesa, transformaram o mundo em um lugar melhor?

Segue o trecho que despertou esta pergunta:

“Torna-se indispensável, assim, compreender a atmosefera cultural da época [século XVIII], levando-se em conta, de um lado, o enfraquecimento do fervor religioso conseqüente ao avanço do espírito libertário (...) e que agora, embrigado pelos sucessos numerosos, fecundos e muito rápidos da investigação científica, tendia à superestimação da Ciência como instrumento válico e único para a solução de todos os problemas do Homem, cuja Razão passava a ser, igualmente, superestimada, constituindo-se os seus critérios na única fonte idônea para o estabelecimento da Verdade.”

“Como se vê, também pelo caminho assinalado, desprestigiava-se a Revelação como fonte do conhecimento de verdades essenciais a que até ali, bem ou mal, se havia submetido o comportamento individual e as concepções de cunho social ou político.

“Foi um período em que o Homem embeveceu-se na contemplação das próprias possibilidades, a tal ponto que, um pouco adiante, chegava, pelo pensamento de Conte, a uma formulação religiosa que erigia em objeto do seu culto a própria Humanidade.

“O agnosticismo passava a ser postura intelectual ‘objetiva’, desprezando-se a metafísica. E quanto o espírito libertário, transbordando do campo religioso para o político, voltou-se contra a autoridade dos reis, como substrato intelectual da revolta estava o agnosticismo da Enciclopédia, carregado das idéias que, principalmente Condillac, se incumbira de transporta da Inglaterra para a França. Foi assim que a rebelião contra as injustiças do absolutismo monárquico a serviço das elites decadentes eclodiu em 1789, hasteando a Revolução Francesa como bandeira política, principalmente o reclamo pela liberdade. Liberdade, porém, que nascendo de solo agnóstico, não se definia quanto a contornos nem quanto a limites. O ideal proclamado, portanto, não tinha conteúdo finalista, esgotando-se em si mesmo. Era, assim, algo que, sem ser oposto, na matéria, ao que poderia ser concebido a partir da perspectiva do Cristianismo, diferia dela pela não consideração da dualidade consubstancial presente na realidade humana e pela não consideração das  do responsabilidades decorrentes da existência da sua alma imortal e de uma Lei divina da qual resulta a necessidade de exercitar a liberdade, não no sentido da satisfação de todos os impulsos e apetites, mas no sentido de que muitos deles são limitadores e escravizantes, impedindo ou dificultando a realização do destino da criatura humana, tal como concebido por aquela perspectiva.

“A imprecisão do conceito acerca da liberdade, oriundo da influência do agnosticismo, haveria de acarretar, tal é a realidade da pessoa humana, a sua degradação progressiva em licença.

“Quantos poderiam, porém, àquela altura, no clima de embriaguez resultante da abolição dos privilégios odiosos e injustos e da superestimação das possibilidades do Homem para assenhorear-se do seu próprio destino, pressentir que se introduzia na cultura do Ocidente, superposta a ela, uma visão que, sem agredi-la de maneira ostensiva e explícita, entretanto dela diferia fundamentalmente?”

E o autor cita ainda os conceitos expostos pela Profª de Filosofia Susane K. Langer, em trabalho apresentado em 1961 à Associação Japonesa Pró-Filosofia da Ciência, em reunião realizada em Niko, Japão:

“O sentimento básico da maioria das pessoas hoje em dia parece ser de profunda confusão em moral, fins, valores, crenças e motivos.”1

Prof. Boaventura alega que a principal razão dessa confusão seria a superposição da visão agnóstica à visão cultural do Cristianismo.

Isso é verdade? E se é, a Maçonaria é culpada pela loucura que grassa hoje no mundo?

Antes de mais nada devemos observar que a Maçonaria, apesar do nome generalizante, é dividida em diversas potências e obediências, com centenas de ritos. Havendo se estruturado nos padrões atuais com a criação da primeira Grande Loja, em 1717 (que viria a ser depois a Grande Loja Unida da Inglaterra), anos antes da Revolução Francesa, já havia uma profusão de ritos, muitos dos quais com profunda carga mística.

O que vários autores deixam entrever é que a corrente majoritária do movimento maçônico, em especial na França, desviou-se grandemente (e por vezes completamente, como é o caso do Rito Moderno) daquilo que os esotéricos consideram ser a finalidade da Sublime Ordem, a preservação dos Mistérios Antigos. Para Nicholas Hagger (escritor, filósofo e intérprete da história mundial contemporânea e da influência das organizações secretas na história das revoluções ocidentais), o Grande Oriente de França teve papel preponderante na Revolução, sob a influência dos Iluminados da Baviera de Weishaupt2.

Neste sentido, colhemos do Irmão Wagner Veneziani Costa que:

“Quando, na decadência da Arte Real, os Rosacrucianos da Inglaterra depositaram o segredo de suas operações no simbolismo simples e espontâneo de uma Corporação operária, eles acreditaram que a tradição de sua arte passaria às gerações futuras em toda sua pureza.

“Apesar de engenhosa, a intenção daqueles adeptos não se realizou. Em nenhum outro lugar a Ciência Sagrada suportou mutilações maiores que no seio dessa Corporação, que acabou por descer ao nível de uma sociedade ignorante de sua própria natureza e de seu objetivo primitivo.”3 (que na verdade é uma transcrição ipsis litteris de Téder4)

E para Wagner esta realidade decadente persiste “pois é de fácil percepção que a maior parte de nossas Lojas Maçônicas (refiro-me aos Irmãos que pertencem ao quadro de obreiros) afastam-se de todo esforço espiritual para se concentrar em compromissos nefastos da política e para descer de grau em grau até se tornarem centros ativos de ateísmo e de materialismo.”3 (grifo nosso)

De acordo com Stanislas de Guaita (1861-1897) em “No Umbral do Mistério”, publicado em 1886:

"... evoquemos ainda a lembrança dessas grandes sociedades secretas, de que a Franco-Maçonaria atual não passa de um simulacro sem vida, ou melhor, um rebento degenerado. Uma vez que o Querer infrangível – faculdade soberana do adepto – só era suscetível de afirmar-se pela energia na luta e na constância, em vista da sorte adversa, quem porventura aspirasse ao grau oculto deveria, ao longo de terríveis provas preliminares*, dar a medida de seu destemor.”

“*Com relação às provas, extraídas dos egípcios, enviamos o leitor a Jâmblico, sem temer que ele confunda estas cerimônias com aquelas humilhantes das lojas atuais, onde reina uma caduquice alegórica e solene."5 (grifos nossos)

Em “O Templo de Satã”, De Guaita relata com pormenores o massacre de Irmãos maçons por pretensos Irmãos durante a Revolução Francesa e inclusive a absurda execução do Martinista Cazotte (1719–1792), absolvido num dia e julgado novamente e executado no dia seguinte.6

No mesmo norte, o IHS – Hermetic Institute, em um de seus posts afirma que:

“Ao longo dos últimos 300 anos muita Maçonaria foi perdendo esta essência e ganhando outra, mais humanista (diz-se), mais liberal, mais laica. O que para uns foi o ganhar de uma liberdade de pensamento mais abrangente foi para outros o esquecer da essência e das tradições profundas que encerravam o propósito da Ordem.”7

Concordamos que grande parcela da Maçonaria atual esqueceu completamente sua origem e que isto começou já nos idos da Revolução. Este problema é causado pela própria falta de estudo maçônico (o que o próprio Irmão Rizzardo da Camino já alertava em relação aos Maçons brasileiros; isso em 1982!!!)8. Os autores citados condenam este descompasso entre a prática maçônica daquela época e a tradição. Todavia, não devemos julgar o todo pela parte e condenar a Maçonaria pelo comportamento eminentemente político de “Irmãos” que pensaram apenas em se locupletar materialmente das estruturas do poder estatal que foram por eles solapadas das monarquias em fins do século XVIII. Ressalte-se que o populacho que seguiu à frente nas batalhas – insuflado pelos burgueses em ascensão – e que viria a radicalizar o movimento, por fim a quase nada teve acesso, ficando a chupar o dedo como o garoto ao pé da mesa na “Ceia” de Bruegel.

De acordo com a prancha de um Irmão que desejou ficar anônimo, apresentada durante uma reunião solene das Lojas de língua Russa que trabalhavam sob a jurisdição da Grande Loja de França, em 1949:

Quanto à Maçonaria Francesa, parece que hoje ela tende igualmente a rever a sua posição neste sentido [da influência materialista]. Já há muito tempo que este perigo do radicalismo, aparecendo nas Lojas francesas, provocou reações. Deste modo, [Jean-Marie] Ragon escrevia já no século passado [XIX]:

“‘O dogma do racionalismo e do bom senso infiltrou-se na Franco-Maçonaria [a nosso ver, bem antes da época de Ragon]. No entanto, ela nunca foi nem monárquica nem imperialista, nem republicana, pois se assim fosse amanhã poderia ser socialista, comunista, anarquista e tudo o mais que passe pela cabeça fantasista dos homens. Ela está acima de todas essas variações de regime. A verdadeira iniciação é a única missão superior da Maçonaria, que não pode ser universal a não ser no domínio espiritual.’” (os colchetes são nossos).9

Em verdade, conforme Hagger deixa claro em sua obra, a Revolução Francesa ficou fora de controle, com vários segmentos disputando a hegemonia política através da violência. A maioria das lojas abateu colunas entre 1791 e 1792, após o 10 de agosto, o que para alguns denota o seu claro afastamento dos caminhos republicanos seguidos pela Revolução, ou seja, o movimento produzia agora todo tipo de fruto. A bem verdade, não houve uma, mas, pelo menos, quatro Revoluções Francesas, entre 1789 e 1799, e cada uma que surgia devorava voraz e celeremente a anterior. Mas para alguns autores, como Hagger, a supressão aparente das lojas foi simples medida de precaução e não lhe prejudicava a atividade, pois as lojas secretas continuavam a existir, como no passado, e as outras eram substituídas pelos clubes. Esta circunstancia foi confirmada por um estudo do maçom Schaffer, publicado, em 1880, no Boletim Maçônico da Loja Simbólica Escocesa10.

Podemos dizer que a Maçonaria atual – em especial a que está sob a órbita do Grande Oriente de França – foi visceralmente influenciada pelos valores saídos da Revolução, entre eles o anti-clericalismo, a laicidade, o republicanismo e o igualitarismo e muitos Irmãos tiveram papel relevante na difusão de tais valores, havendo quem alegue que tal difusão foi perpetrada por estes Irmãos sem o apoio da Sublime Ordem, enquanto outros alegam que a Revolução foi a execução de um plano maçônico iluminista.

Apesar da violência que acarretou, a Revolução trouxe vários benefícios em seu esteio, como a valorização da dignidade da pessoa humana, com a sua Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão sendo um dos baluartes da defesa dos Direitos Humanos.

Por outro lado, a sociedade atual mostra-se vazia de religiosidade, com os mais terríveis crimes sendo perpetrados todos os dias. Infelizmente, os revolucionários entronizaram a deusa “razão”, mas jamais o homem pode ascender espiritual e materialmente sem o apoio do G.·.A.·.D.·.U.·.. O homem moderno vive no vazio existencial pela perda na crença da divindade e pela perda do respeito à dignidade humana: “eu luto por defender minha dignidade em detrimento da do outro”.

Embora fale em defender e conceder ao povo uma profusão de direitos, mais parece que a elite dominante não tem interesse na educação das massas, pois um povo ignorante continua sendo facilmente manipulado, ademais se premiado com táticas assistencialistas que em nada devem ao “pão e circo” romano. Ou seja, hoje há uma massa sem Deus e sem inteligência à mercê de burgueses que ascenderam ao poder, o que não significa dizer que a coisa estaria melhor nas mãos da monarquia. E assim, o “admirável gado novo” estará sempre sob controle. Olhando sobre este prisma, o plano iluminista alegado por Hagger (se é que existiu) foi/é brilhante.

Do ponto de vista das vantagens, adveio também da Revolução uma certa popularização da Maçonaria, que ao longo do tempo foi permitindo a entrada em seus quadros de Obreiros das mais diversas classes sociais e etnias, quando em seus primórdios especulativos só tinham acesso à Ordem, nobres e altos burgueses. A Maçonaria não pode se dizer universal e ser ao mesmo tempo elitista do ponto de vista econômico. Todavia, particularmente em nosso país, observe-se que ao passo em que grassa o elitismo econômico (e me acosto em Rizzado e Wagner para dizê-lo), o supedâneo intelectual dos candidatos fica em segundo plano, permitindo-se o ingresso na Ordem de Obreiros que nunca chegaram/chegarão ao entendimento do que ali se faz. Ressalte-se ainda que misticismo não é o mesmo que conhecimento acadêmico e nada impede que um Irmão que nunca cursou uma universidade progrida grandemente na senda, como há inúmeros casos na história e hierohistória universal. O que não se entende e não deve ocorrer é um Maçom passar anos na Ordem sem nunca ter lido sequer os rituais dos três graus simbólicos, coisa que já ouvi de um.

Muito da finalidade real da Maçonaria – o culto da espiritualidade e a busca do equilíbrio moral sem os quais a própria existência do “Eu” material do homem se encontra parcialmente comprometida – se perdeu ao longo do tempo e este tem sido o grande desafio da Maçonaria atual: satisfazer aos anseios dos buscadores atuais, ávidos por informações. Se eles aprenderem mais pela internet e pela profusão de livros hoje existentes e se se exercitarem no aprimoramento moral em seus lares e no dia a dia, se eles só encontrarem nas lojas um pomposo e vazio desfile de aventais e jóias de graus de ilustres Irmãos desprovidos de calor humano e de conhecimento, em que lhes interessará freqüentar lojas maçônicas??? Se não houver uma mudança, teremos mestres (com M minúsculo mesmo) ricamente paramentados sendo postos à baila em matéria de conhecimento maçônico por adolescentes conectados ao Google.

Como bem assevera nosso Irmão Vagner Veneziani:

“Eles, os profanos, preferem discutir política caseira, arrumar um bom emprego, satisfazer suas vaidades… Usam claramente a Maçonaria como um trampolim. E o pior de tudo isso é que encontram guarita em nossa Sociedade Iniciática. Talvez sejam os mesmos ‘homens’ que não conseguiram absolutamente nada em sua vida particular e querem tirar proveito, sugando a força de nossa querida Instituição. Temos que dar um basta nisso e urgentemente, antes que transformem a Maçonaria em um partido político.”

Entrementes, alguns Irmãos vivem a cobrar o retorno do antigo brilho da Maçonaria, à frente do povo na luta por reformas políticas e sociais. Não vêem que, como Prometeu trazendo o fogo dos deuses para os homens, a Maçonaria já cumpriu o seu papel, trazendo às massas o direito ao livre arbítrio. Cabe a elas agora seguirem os seus juízos de valor (que parecem estar em extinção, restando somente a satisfação dos desejos instintivos mais primitivos).

Nada impede que a Maçonaria se engaje em campanhas em prol da comunidade, todavia, ela deve priorizar urgentemente o cavalheirismo moral e o aprimoramento espiritual de seus membros. A luta agora é principalmente no interior de cada Obreiro; quem salva uma alma, salva o mundo inteiro.

Se nada for feito, logo mais nada restará da autêntica Maçonaria, exceto pompa, muita pompa, ornada de simulacros e simulações.

BIBLIOGRAFIA:

1 - BOAVENTURA, Jorge. Ocidente traído – a sociedade em crise. Rio de Janeiro: Ed. Bibliex, 1980. pp. 24-26.

2 - HAGGER, Nicholas. A História Secreta do Ocidente - a influência das sociedades secretas na história ocidental da Renascença ao século XX. Cultrix.

3 - COSTA, Wagner Veneziani. Tempo de Estudos, publicado no site Revista Universo Maçônico. Publicado em <http://www.revistauniversomaconico.com.br/tempo-de-estudos/tempo-de-estudos/>. Acesso em 04 de março de 2012.

4 – TEDER. Ritual da Ordem Martinista.  Editora Incognito.

5 - DE GUAITA, Marie Victor Stanislas. No Umbral do Mistério (pag. 43, ed atual - Martins Fontes/Sociedade das Ciências Antigas - 1985).

6 - DE GUAITA, Marie Victor Stanislas. O templo de satã. Editora Três - 19b73 – vol. 2.

7 - "Lançado site da Maçonaria cristá em Portugal". Publicado em <http://ihshi.com/wp/archives/2046>. Acesso em 04 de março de 2012.

8 – DA CAMINO, Rizzardo. Simbolismo do Segundo Grau (Companheiro). Editora Aurora, 2ª ed.

9 - "A Franco-Maçonaria - Ordem iniciática - parte I". Publicado em <http://ihshi.com/wp/archives/1298> Acesso em 04 de março de 2012.
  
10 - PETERS, Ambrósio. Revolução Francesa e a Maçonaria. Publicado em < http://samauma.biz/site/portal/conteudo/opiniao/ap00208revolucaofranc.htm>. Acesso em 04 de março de 2012.

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