sexta-feira, 16 de março de 2012

MAÇONARIA E REGENERAÇÃO

A criação de Adão (Michelangelo, c. 1511)

A expulsão de Adão e Eva do Paraíso (Benjamin West, 1791)




Texto de João Florindo B. Segundo, C.·. M.·.


Logo nos primeiros meses de caminhada maçônica despertou a atenção deste signatário o fato de algumas lojas possuírem em seu nome a palavra “regeneração”, sobre a qual até o momento nada encontrou no estudo simbólico empreendido nos rituais (de Aprendiz e Companheiro) de Oficinas regulares a que teve acesso e nem nas conversas com Irmãos há mais tempo na senda.

Tomando ciência de que a nível de Paraíba as lojas que possuem tal vocábulo em seu nome surgiram entre o fim do século XIX e o início do século XX, de pronto este autor julgou haver vínculo com a ilustração brasileira na escolha do nome, vez que tal movimento vicejou naquela época. E foi em busca das informações.

Pesquisando na internet, verificou-se algumas ocorrências da expressão “regeneração” em textos maçônicos, onde se julgou, encontrar-se-ia seu significado (a nível de maçonaria). Senão vejamos:

“Originada da evolução da maçonaria operativa ancestral, foi estabelecida em Londres em 1717 uma maçonaria preconizando uma busca da regeneração do homem e da humanidade, numa moldura humanista, social e política não confessional.”1 (g.n.)

“11º Grau [do Rito Escocês Antigo e Aceito]: Sublime Cavaleiro Eleito ou Cavaleiro Eleito dos Doze - Dedica-se à regeneração”.2 (g.n.)

“Bem assim, como nareligião, se despoja o homem, na hora suprema, de sua forma terrestre, para ascender a uma vida toda espiritual.

Esta sublime idéia da destruição e regeneração dos seres, estabelecida pela natureza e reproduzida em todos os antigos e modernos dogmas religiosos, é o objetivo moral que nos propomos a inculcar, principalmente, no primeiro grau.”3 (g.n.)

O significado ainda era um mistério. Encontrados textos com a palavra sob estudo, faltava agora uma explicação dela no contexto da metafísica e da ontologia maçônicas. A princípio, foram encontradas as seguintes menções (os grifos são deste autor):

“A Regeneração Universal e o Segredo da Imortalidade constituíam a preocupação máxima dos alquimistas ligados á fraternidade dos Rosacruzes.”4

“Sendo todas as coisas de natureza tríplice, a Alquimia também apresenta um aspecto triplo. No aspecto superior, ensina a regeneração do homem espiritual, a purificação da mente e da vontade, o enobrecimento de todas as faculdades anímicas. No aspecto mais inferior trata das substâncias físicas e, abandonando o reino da alma viva e desvenda matéria morta.”5

“Numa rápida e muito sucinta explicação de ambos, os Mistérios Menores são aqueles que dizem respeito ao Paraíso Terrestre e que têm como fim primeiro restaurar o estado primordial, o dito homem verdadeiro. Compreendem estes mistérios tudo o que se relaciona com o desenvolvimento das possibilidades do estado humano  e têm como uma conclusão primordial a realização  horizontal, atingindo-se esta através do denominado  segundo nascimento, vivendo este como que uma autêntica regeneração psíquica que permite o conhecimento do devir por parte do então profano agora já A.·. Maçon.”6

Pela leitura ora realizada, verifica-se que a regeneração abrange os campos físico, mental e espiritual. Mas o que se regenera é aquilo que está maculado. E como e quando o homem chegou a esta condição?

A explicação maçônica aberta ao público que julgou este signatário mais satisfatória encontra-se na metafísica presente nos estudos da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, também conhecida por Regime Escocês Retificado. Segundo os adeptos deste rito, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus e gozava da imortalidade e da beatitude perfeita no estado primitivo glorioso que lhe era próprio, porque estava em comunhão direta e constante com o Grande Arquiteto do Universo (GADU).

De livre vontade, Adão (o homem arquetípico) afastou-se do GADU e caiu, perdendo a semelhança divina, ao passo que a imagem divina nele permanece inalterada, vez que a presença de Deus é imutável. Entretanto, tal imagem tornou-se deformada e isso é o que simboliza a passagem do Oriente para o Ocidente, da luz à escuridão, do lugar de paz total (Pax Profundis, o qual era um estado de ser e não um lugar físico), para o caos de nossa atualidade.

Separado de sua origem, o homem é chamado por Jean-Baptiste Willermoz (sob influência de Martinez de Pasqually) de “homem em privação”, a qual é absoluta e implica num duplo castigo ao qual ele mesmo se condenou. O primeiro é que o homem não está em unidade com Deus, em comunicação imediata e constante com Ele. E o segundo castigo é a transformação do corpo glorioso de que o homem estava revestido, num corpo de matéria, sujeito às doenças, à velhice e à morte.

O homem encontra-se agora dotado de uma dupla natureza: uma espiritual, graças à qual permanece sendo a imagem de Deus e a segunda, animal, corporal, que ganhou com a queda e pela qual se assemelha aos animais terrestres. 7

Resta agora saber como o homem pode alcançar a regeneração, ou seja, reentrar na glória que lhe pertencia. O RER afirma que o objetivo único e verdadeiro das iniciações é preparar o iniciado para descobrir o único caminho que pode conduzir o homem ao seu estado primitivo e devolver-lhe os direitos perdidos, ao que chamam também de reintegração, tal como os martinistas. Entenda-se que a reintegração é a meta a ser alcançada por meio da regeneração. Cabe ao iniciado alcançar a felicidade plena pela reconstrução de seu templo interior pelo uso das ferramentas que a Maçonaria lhe provê; e aqui se chega ao limite no âmbito maçônico no tocante à regeneração espiritual.

Quanto ao uso da palavra regeneração no contexto maçônico brasileiro do final do século XIX e início do século XX, deve-se recordar a eclosão da Questão Religiosa, em 1872. Nesse período, a Igreja Católica defendia a supremacia dos seus decretos, proclamava a infalibilidade papal, definida no Concílio Vaticano de 1870, à época do pontificado de Pio IX (que era Maçom!), combatia os ideais liberais e proibia a presença dos maçons em seus cultos. Por sua vez, o Estado defendia o seu direito de negar a validade das determinações oriundas da Igreja que ferissem a Constituição, além de contrapor-se às restrições à Ordem maçônica. 

Esta querela acabou propiciando transformações no campo de atuação da Ordem. A primeira delas foi a aproximação com o movimento da ilustração brasileira, visando modificarem a realidade social do país. A segunda foi o incremento dos investimentos maçônicos em beneficência e instrução, como meio de frear o fortalecimento da Igreja em detrimento da capacidade da Maçonaria de influenciar a organização da sociedade e por em prática seus projetos libertários.

Não obstante, o uso é um pouco mais antigo a nível de outros Estados brasileiros. No vizinho Pernambuco, por exemplo, em 1816, a Ordem contava com Lojas atuantes, com destaque para a “Regeneração”, fundada em Olinda, em 1809 e da qual fizeram parte os principais líderes da Revolução Pernambucana de 1817. Ressalte-se ainda a Oficina “Pernambuco do Ocidente”, a qual no período funcionava na casa de Domingos José Martins, líder do movimento revolucionário.8 Este fato comprova que no Nordeste brasileiro já era corrente o uso da expressão regeneração entre os maçons antes do movimento da ilustração, o que ratifica que o conhecimento metafísico oriundo das Oficinas européias acima citados chegaram ao Brasil.

Pode-se ter uma idéia clara dos ideais maçônicos à época da ilustração – e em que a palavra regeneração estava em voga – através de artigo de A. F. Amaral publicado no Boletim do Grande Oriente, editado pelo círculo dos Beneditinos, em 1873:
“A maçonaria é mais alguma coisa do que uma companhia de socorro mútuo: é uma instituição filantrópica no sentido mais lato da palavra... Compreendeu, pois, a maçonaria criada para proteger a humanidade e dar-lhe pleno desenvolvimento, que a sua missão era dupla, como dupla é a natureza do homem. Para realizá-la cumpri-lhe, portanto, não só dar pão aos famintos, vestir os nus e abrigar os que não tivessem teto, como também procurar dar toda expansão às faculdades morais do homem – a inteligência, o livre arbítrio –, dons sagrados que o elevam acima da natureza criada e o tornam elo visível entre ela e a divindade. ... Mas cultivar a inteligência das massas, ensinar-lhes os seus direitos, dizer ao ínfimo dos párias, ao último dos hilotas, ao mais degredado dos vilões – tu és homem, e portanto és livre –, foi sempre coisa grave e perigosa: a ilustração e a liberdade das massas fere e derruba os interesses ilegítimos dos fortes e dos espertos.”9
A ilustração brasileira, em fins do século XIX, um movimento que só teve semelhante no iluminismo europeu do século XVIII, defendia a separação entre Igreja e Estado e a liberdade de expressão e de pensamento, além de crer piamente no poder das idéias, no espírito científico e na importância da educação. Os defensores da ilustração se propuseram a mudar o país pela ciência, pela cultura e pela educação, tendo a escola por base. Todavia, para superar o atraso cultural, era necessário reformar o ensino e tantas outras circunstâncias da vida nacional.
O movimento persistiu por certo tempo, sendo sobrepujado por novas nuances sociais que despontaram ao longo do tempo, sobremaneira pelo triste advento da Primeira Guerra Mundial. E neste lapso de tempo os maçons – em especial os positivistas – estiveram firmemente engajados nesta busca por soluções aos graves problemas nacionais, desempenhando ainda um papel central na laicização do Estado e das instituições públicas, no processo de abolição da escravatura e no de proclamação da República. Deve-se recordar que para Augusto Comte (um dos pais do Positivismo) estabelecendo-se a unidade espiritual por meio da ciência, a Religião da Humanidade (elaborada por ele; monista e naturalista) possuiria como principal objetivo a regeneração social e moral.

Concernente às lojas maçônicas paraibanas com a palavra “regeneração” no nome, a primeira a apresentá-lo foi a Regeneração Brasílica nº 162, instalada na Capital, da qual se tem notícia da existência em 1865, faltando dados quanto à data de sua fundação10 . Alguns anos depois, surge a Loja Maçônica Regeneração do Norte, fundada em 16 de outubro de 1898, quando a ilustração estava deveras atuante no cenário brasileiro. Situada à Rua Direita (hoje Av. Gal. Osório), Centro de Parahyba, hoje João Pessoa, trata-se da mais antiga Oficina maçônica em funcionamento da Paraíba.11 Tão logo fundada, no espírito da ilustração (de amparo espiritual e material aos necessitados), os Irmãos realizaram uma campanha angariando recursos – roupas usadas e gêneros alimentícios – para assistirem as vítimas da seca que grassava à época.12  Atualmente, é a Loja nº 10 da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba.

A segunda loja paraibana com a presença da regeneração em seu nome é a Regeneração do Norte, fundada no dia 19 de agosto de 1923, à Rua Marquês de Herval, Campina Grande. Em 20 de fevereiro de 1924, a loja maçônica instalou seu templo no sobrado da família Ivo Macacheira, à Praça Epitácio Pessoa. Hoje, é a Loja nº 02 da Grande Loja da Paraíba.

Em 24 de junho de 1926, foi inaugurada a atual sede e em 1928, ocorreu a criação da biblioteca maçônica, chamada “Biblioteca Arlindo Correia”, em homenagem a um Irmão.

Em setembro de 1932, os maçons campinenses tiveram a honra de inaugurar o primeiro hospital da cidade, o Hospital Pedro I.

Após investir no campo da saúde, a “Regeneração Campinense” seguiu rumo à regeneração da coletividade pela educação, com a fundação do “Grupo Escolar Antônio Vicente”, assim denominando-o numa justa homenagem ao maçom Antonio Vicente Ferreira, que doou todos os seus bens materiais à Maçonaria. O terreno do grupo, localizado no bairro de José Pinheiro, foi doado pelo maçom João Mangueira Neto. Em 1964 a escola seria estadualizada e em 1992, demolida para a construção de um novo edifício, mais amplo e moderno. Boa parte do acervo da biblioteca “Arlindo Correia” foi redirecionada para o local que hoje chamado “Escola de Ensino Fundamental Antônio Vicente”.13 
E assim prosseguem estas Oficinas maçônicas e tantas outras, cultivando este sublime ideal de trazer os seres humanos desafortunados à luz do amparo material e espiritual, que é a sublime meta da vida humana, como o ensinou Jesus Cristo, aquele que serviu mais que foi servido. O amparo material se dá pela beneficência ativa e despojada de reconhecimento e o espiritual pela defesa da liberdade de crença e de culto pelas iniciações e estudo daqueles cidadãos julgados aptos a freqüentar as Oficinas. Em verdade, a carência de apoio espiritual é maior que a de apoio material e atinge mesmo as pessoas que possuem de um tudo.
Vê-se por tudo o exposto que a mentalidade brasileira à época do movimento de ilustração evoluiu do tipo conservador, defensor dos ideais monárquicos e católicos, para uma intelectualidade adepta das novas descobertas científicas e da evolução dos costumes. E nesta conjuntura, a palavra regeneração estava bastante presente e possivelmente com vários significados mesmo entre os maçons (físico, moral e espiritual, individual ou coletivamente, conforme as crenças religiosas dos Irmãos).
Eram outros tempos, em que o maçom imaginava que os avanços da ciência aliados à reforma interior fariam da terra o paraíso perdido; mas as mentes vivem em convulsão e o querer de alguns não é o querer de todos. Muita coisa mudou, para o bem e para o mal. Entrementes, o ideal maçônico de evolução (principalmente moral e espiritual) da humanidade sobrevive através dos tempos e amparados na crença de que um futuro melhor é possível foi que o Irmão João Antonio e este signatário, ambos residentes em Cajazeiras, sertão da Paraíba, optaram por nomear este blog como “Regeneração Cajazeirense”, um singelo meio de resgatar antigos novos ideais para a evolução do mundo moderno cheio de vícios antigos. Neste espaço, compartilharão com os Irmãos de todo o Orbe, suas pesquisas, dúvidas, opiniões e crenças, sem fazer-lhes distinção de raça, cor, crença ou posição social, esperando que lhes seja útil em busca da Verdade.

A cada nova iniciação, reacende-se a esperança em um amanhã melhor, pois a regeneração da humanidade começa pela evolução individual de cada ser, até atingir a consciência coletiva. Trazer Luz à humanidade: esta é a missão da cavalaria espiritual ontem, hoje e sempre.  Busquem-na e compartilhem-na, para a honra e a glória do Grande Arquiteto do Universo!

BIBLIOGRAFIA                  



1 – BUDOR, Robert. Função da Loja de Perfeição. Traduzido por Moiz Halfon. Disponível em <http://www.supremo.org.br/argitos/163-funcao-loja-de-perfeicao.html> Acesso em 12 mar. 2012.

2 – Hierarquia Maçônica. Disponível em <http://www.spectrumgothic.com.br/ocultismo/crencas/maconaria/hierarquia.htm> Acesso em 12 mar. 2012.

3 – CASSARD, Andres. Resumo dos três primeiros graus. In Sois? <http://mestredoimaginario.blogspot.com/> Acesso em 12 mar. 2012.

4 - FIGUEIREDO, Expedito. I.N.R.I. Disponível em <http://www.masonic.com.br/trabalho/inri.htm> Acesso em 12 mar. 2012.

5 – GALDEANO, Lucas Francisco. Alquimia e maçonaria. Disponível em <http://www.freemasons-freemasonry.com/galdeano_alquimia.html> Acesso em 12 mar. 2012.

6 – FERNANDO. Os mistérios. Disponível em <http://www.maconaria.net/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=116> Acesso em 12 mar. 2012.

7 – VAR, Jean-François. A doutrina do RER. Disponível em <http://adhucstat.com/wp/?p=71> Acesso em 12 mar. 2012.

8 – Almeida, Vandy Alves. O início da maçonaria no Brasil. Disponível em < http://acaciadovale.org.br/textos/Trabalhos/O%20Inicio%20da%20Maconaria%20no%20Brasil%20%20-%20Ir.%20Vandy%20Alves%20de%20Almeida.pdf> Acesso em 12 mar. 2012.

9 – Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil. Rio de Janeiro, 2 (2-3): 104, fev.-mar. 1873. Citado por BARATA, Alexandre M. A Maçonaria e a ilustração brasileira. História, ciências, saúde – Manguinhos I (1): 78-99, jul.-out., 1994. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v1n1/a07v01n1.pdf> Acesso em 12 mar. 2012.

10 – OLIVEIRA, Aderaldo Pereira. Maçonaria do Grande Oriente do Brasil em território paraibano. Campina Grande: EPGRAF, 2012.


11 - Nossa Loja. Disponível em < http://regeneracaodonorte.blogspot.com/p/nossa-loja.html> Acesso em 12 mar. 2012.                                                                                             

12 – ZENAIDE. Hélio Nobre. A Maçonaria na Paraíba. Disponível em <http://www.ihgp.net/pb500s.htm> Acesso em 12 mar. 2012.

13 – A Loja Maçônica “Regeneração Campinense”. Disponível em <http://cgretalhos.blogspot.com/2009/11/maconaria-regeneracao-campinense.html> Acesso em 12 mar. 2012.

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