quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SEMANA DA PÁTRIA 2012 - PARTE 02

Por João Florindo B. Segundo, M.·. M.·.





O Areópago de Itambé

O Areópago de Itambé é considerado por muitos maçons a primeira Loja Maçônica do Brasil, fundada em 1796, por Manoel Arruda Câmara. Antes de nos debruçarmos sobre a história dessa Oficina e seus ideais, façamos uma rápida incursão pela bibliografia do Mestre.

Arruda Câmara (1752-1810).


Quem foi Arruda Câmara?

Manuel Arruda Câmara nasceu em Pombal-PB, em 1752, filho de Francisco Arruda Câmara e de Maria Saraiva da Silva, descendente te cristãos-novos.

Ingressou na regra dos Carmelitas Calçados aos 23 de novembro de 1783, no Convento de Goiana-PE. Ficou então conhecido por Frei Manoel do Amor de Jesus. Em seguida, juntamente com seu irmão, Francisco, viajou à Europa, onde se formou em Filosofia Natural pela Universidade de Coimbra, Portugal e, mais tarde, alcançou o grau de doutor em Medicina na Universidade de Montpellier, França.

Em 1793, retornou a Goiana, com a incumbência de proceder levantamentos naturais na região Nordeste do Brasil para a Coroa. Por isso, no período de março de 1794 a setembro de 1795, fez uma expedição mineralógica entre Pernambuco e Piauí, entre dezembro de 1797 a julho de 1799, viajou entre a Paraíba e Ceará, bem como procedeu pesquisas no Rio São Francisco.

Resultaram das expedições levantamentos botânicos, mineralógicos e zoológicos. Da lavra de Arruda Câmara também surgiu asCentúrias dos novos gêneros e espécies das plantas pernambucanas, que contém também desenhos dele e de João Ribeiro de Mello Montenegro. São conhecidas outras oito obras suas, todas referentes à agricultura, procurando verificar quais as melhores culturas a serem implementadas na região.

Faleceu em Goiana, aos 02 de outubro de 1810. Em sua homenagem, além de ser patrono da cadeira nº 02 da Academia Parainba de Letras e da cadeira nº 28 da Academia Paraibana de Medicina, também teve seu nome escolhido para o parque zoobotânico de João Pessoa, Capital da Paraíba, embora seja mais conhecido como a Bica, em razão de uma fonte que ali há.


A história do Areópago

Pelo fim do século XVIII, a proibição pela Corte portuguesa do desenvolvimento industrial brasileiro vinha causando grande descontentamento, pelo que, em 1775, comerciantes cariocas fomentaram o início de uma conspiração. No ano seguinte, uma carta régia proibia o ofício de ourives em Pernambuco. E em 14 de agosto de 1795 são proibidos o exercício das ciências e letras.

A cidade de Goiana, que fora sede da Capitania de Itamaracá, além de um centro produtor de açúcar, era também um local de convergência de comerciantes oriundos do Ceará e do interior da Paraíba para a grande feira que ocorria em Nossa Senhora do Ó, atual Tupaoca. Um lugar de pouso para quem ia ou voltava da feira era Itambé (do tupi, “pedra de fogo”), local relevante desde a época do paraibano André Vidal de Negreiros (1606-1680), que lutou pelo fim da ocupação holandesa no Brasil (1580-1640). A cidade faz divisa com a paraibana Pedras de Fogo.

Expulsos os holandeses, a população de Goiana obteve permissão para a instalação de um convento dos frades carmelitas, sendo construído o Santo Alberto, onde Arruda Câmara iniciou sua vida religiosa. Na Europa, foi iniciado aos augustos mistérios maçônicos, não se sabendo se na França ou em Portugal, convivendo então com outros irmãos que sonhavam e almejavam participar da construção de uma humanidade livre e progressiva; não custa lembrar que há poucos anos ocorrera a Revolução Francesa e por essa época o país ainda vivia em ebulição.

Fiel adepto das ideias libertárias, ao retornar ao Brasil, em 1796, Arruda Câmara funda no povoado de Itambé, um clube visando vocações similares de contestação ao governo português, apesar da possibilidade de lhes ser aplicada pena capital em razão da sedição. O clube funcionava à Rua Vieira de Mello, existente até a década de 1940, no limite entre as Capitanias de Pernambuco e Paraíba.

A palavra Areópago tem vários significados, mas todos remetendo a um local onde as pessoas se reúnem para debater ideias. Etimologicamente, é a adaptação de areopagus (ou Areios Pagos, de Ἄρειος πάγος), que significa algo como “colina de Ares”, em alusão ao deus da guerra grego e era o nome que se dava ao local de reunião dos aristocratas gregos, os quais em tempo de guerra eram responsáveis pela proteção da cidade. Por sinal, quando Arruda Câmara fundou o Areópago de Itambé, o principal assunto era a luta pela liberdade.

Além de Arruda Câmara e seu irmão de sangue, faziam parte do Areópago os três irmãos Cavalcanti de Albuquerque (certamente ancestrais de Epitácio Pessoa e do Irmão João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque), os padres Velho Cardoso, Pereira Tinoco, Albuquerque Montenegro, João Ribeiro Pessoa e José Luís Cavalcanti Lima (vigário de Recife-PE).

Segundo os relatos de moradores da região, os Maçons da época reuniam-se constantemente na referida casa e por segurança, ao fim de cada reunião, os artefatos, símbolos e insígnias eram conduzidos para a casa dos Obreiros. Em verdade, os areopagitas tinham tão altas pretensões que chegaram a negociar com os Estados Unidos a retirada de Napoleão Bonaparte (1769-1821) da Ilha de Santa Helena, dando-lhe pouso seguro em Fernando de Noronha.

O fluxo constante de pessoas influentes pelas estradas das cercanias suscitou denúncias junto aos reinóis e por volta de 1802 foi enviada tropa a Itambé, sendo alguns Maçons presos, enquanto outros puseram-se em fuga, todavia, fundando novas Oficinas em Cabo de Santo Agostinho, Recife e Igarassu, além das Academias Suassuna e os saraus, vez que a doutrinação exercida em no interior do Areópago não sofreu solução de continuidade.

Bandeira da Revolução Pernambucana de 1817, introduzida em 21 de março, com as três estrelas representando os Estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Todavia, já foram encontradas imagens com quatro estrelas. A bandeira atual conta com apenas uma estrela e foi oficializada pelo Decreto nº 459/1917, na comemoração do centenário do movimento, pelo Governador Manuel Antônio Pereira Borba. Mais informações aqui.



Placa em casarão de 1894 no final da Ladeira de São Frei Pedro Gonçalves, no Varadouro, João Pessoa-PB, onde se lê: “Amaro Gomes Coutinho foi o paladino da liberdade na Revolução de 1817. Enforcado no Recife em 21 de agosto, sua cabeça e mãos estiveram expostas neste lugar. Homenagemm do Instituto Histórico e Geographico Parahybano no centenário da morte desse abnegado patriota. 21-8-1917”. 
À época existia no local o Porto do Capim, que era por onde se chegava à capital, daí o interesse de se colocar partes do corpo do revolucionário ali, como forma de intimidar novos planos de sedição. Cavaleiro da Ordem de Cristo, coronel do regimento de milícias brancas de Pernambuco e proprietário na província, Amaro Gomes da Silva Coutinho é reconhecido historicamente pelo papel fundamental desempenhado na revolução pernambucana. Foto por João Segundo em 12/09/2012. O lugar está totalmente abandonado e o encontramos por acaso.



As conversas no Areópago de Itambé influenciaram a Revolta dos irmãos Cavalcanti, que ficou conhecida como Revolta dos Suassuna (1801), bem como a Revolução Pernambucana de 1817, que teve um Presidente e Ministério Maçons, com exceção do ministro da agricultura, Manoel Correia. Outro movimento influenciada pelas conversas na casa de Arruda Câmara foi a Confederação do Equador, de 1824, com o Brasil já independente e governado pelo Maçom D. Pedro I.

Bandeira da Confederação do Equador. Detalhe para o olho no centro da mão na parte superior do brasão. Combinação do olho que tudo vê grego e turco com a hamsa árabe e judaica é encontrado na Índia e no sul do Mediterrâneo, como objetos de decoração e proteção, especialmente de crianças recém nascidas. Estaria o olho a velar pela nascente Confederação?



Outra versão da bandeira, com a cruz ao centro semelhante à da Ordem de Cristo, com a qual Amaro Gomes Coutinho foi distinguido. O olho na mão também aparece com conteúdo simbólico ambíguo entre pequenos artefatos de culturas antigas que poderiam ou não acreditar em mau olhado, como as tribos do Mississipi, nos Estados Unidos. Alguns arqueólogos especulam a possibilidade de a presença do olho na mão na América do Norte ser uma evidência de exploração pré-colombiana ou a colonização por marinheiros do Oriente Médio, enquanto outros acreditam tratar-se apenas de coincidência. 


Mais recentemente em relação aos povos antes citados, o olho no centro da mão pode ser observado no Emblematur Liber (Livro de Símbolos) de Andrea Alciati (1492-1550), publicado em 1531.



Por iniciativa dos IIr.: Mário Melo e Getúlio de Albuquerque César (sendo este casado com dona Rosa Amélia Cavalcanti de Arruda Câmara, sobrinha-neta de Manuel de Arruda Câmara) foi erigido em Itambé, no ano de 1951, um obelisco alusivo ao Areópago, que segundo muitos pesquisadores, marca o lugar onde antes ficava sua sede.

 Em agosto de 1980, o Grande Oriente Independente de Pernambuco (COMAB) prestou uma homenagem à história ao reinstalar o Areópago de Itambé, inaugurando uma Loja Maçônica com seu nome, sob o número 17.


Obelisco erguido em 1951, no qual há a seguinte placa: “Aqui, segundo a tradiçao, existiu o Areópago, onde, nos fins do século XVIII, Manoel Arruda da Câmara lançou a semente da democracia (Memória do Instituto Arqueológico, em 1951)”. Visita ao Areópago de Itambé disponível aqui. Foto de João Segundo, em 17/08/2012.



Ainda há muito o que se pesquisar sobre o Areópago de Itambé e seu projeto político de igualdade, liberdade e fraternidade.


REFERÊNCIAS:


BESOUCHET, Lídia. José Maria Paranhos: Visconde do Rio Branco: ensaio histórico-biográfico/ Tradução de Vera Mourão - Rio de Janeiro: Nova Fronteira; [Brasília]: INL, 1985

BRASIL, Ministério da Justiça. A revolução de 1817. Disponível em <http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=699&sid=89> Acesso em 12 set. 2012.

DA COSTA, Sérgio Corrêa. As quatro coroas de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Casa do livro, 1972.

LIRA, Micheline de Souza. A Confraria Maçônica em Itambé. Goiana, 1999.

MELLO, Mário. A Maçonaria e a Revolução Republicana de 1817. Imprensa Oficial: 1912.

SIMAS, J. Francisco. O Areópago de Itambé. Disponível em <http://mictmr.blogspot.com.br/2005/12/o-areopago-de-itamb.html> Acesso em 12 set. 2012.





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